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segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Antes do corpo saber a alma fingia desconhecer,
A vontade enorme de te amar
E então pensei:
O amor anda escrevendo poemas em mim,
E a alma fingida repete,
O que pensa ser ela quem escreve
Charles Burck
Podes trazer-me de volta os dias que me roubastes?
Não posso mais disfarçar as perdas com palavras
Um verso apenas
Amor menos ainda.
Sobram tristezas e o corpo é o calabouço
que oculta as pequenas poções que se entranham
Somos nós, dois perdidos,
A vasculhar jardins, a colher das noites nossas
A flor de manter a serenidade,
A luz perdida dos cegos
Reaver do silêncio o melhor que sobrou de nós,
Apagar as memórias magoadas,
Um tempo sem aspas,
Um amanhã sem reticências
Charles Burck
O anjo ainda sente o gosto da carne e o cheiro da pele
Naufraga entre as cidades, entre os muros e abismos,
O vento nas asas,
Ainda lembro o chamado choro
O nome dela, 
Depois o silêncio angelical,
A divina morte da pureza,
O estrangeiro entre os homens,
O rosto perdido na multidão
A humana solidão
Charles Burck

sábado, 11 de novembro de 2017

Mil cabeças a doerem-me a desmancharem as ramagens de mentiras,
noites de trançarem flores no céu,
A língua seca
Os exaustivos recursos da imaginação
Hei de sobreviver ao meu caos,
  Antes que alguma coisa me magoe mais fundo, como luz mergulhando no precipício
 Seja consternação no poente e a falta de ar das manhãs
  Soltemos os pássaros presos, os filhos da tristeza

E nem sei se estarei salvo, ainda assim, há mentiras por todos os lados

Charles Burck



Ainda me surpreendo, os olhos vivos no espelho pálido,
Tanto para além do que vemos sempre há outros olhos, os que nos sabem,
Ainda há tantas coisas, tanta coisa sempre a revelarem sonoridades,
Contradições de mim, tantas coisas escrevendo uma história silenciosa,



Charles Burck



Por vezes, há os dias que vivemos abrindo as portas,
Os chamados, os sons que queremos descobrir,
Um dia a mais para vivermos,
O quanto não entendemos de um filme, de um poema... 
de alguém,
 No conteúdo da palavra não saberemos explicar por que,
mas da porta vemos, vemos mais, atravessaremos vagarosamente os nossos silêncios,
Da porta que nos espreita, o mundo é mais...



Charles Burck 
Laura Krifka

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A mulher cega procura o buraco da agulha, a mulher louca procura a razão que una os fatos,
A mulher que ama arruma o quarto...

A linha de seda, a linha de trapo, o fio de linho amarrado em laço,

A cegueira tateia o amor, a loucura o despedaça em naco, a paixão arruma os pedaços  do amor que sobrou

A cegueira expia na escuridão, a loucura foge para o quarto dentro do espelho, a que ama cuida
Tudo hei de saber descosturar, cada peça de roupa macia, cada pétala feita em licor, cada soma que não dê resultado,
Abortem os cintos, o avião partiu para o infinito, desacelerem as almas
Os olhos arregalados da loucura veem as agulhas da cegueira costurando a vida,
Os dias se vão dos seus olhos cegos para sempre,
Mas nos tempos da loucura hei de cantar devagar,
A canção dos olhos penitentes a despir a mulher do poema,
 As roupas espalhadas sobre as cadeiras, o sexo descosturado para não haver solidão
A inquietação de quem tateia no escuro a procura de um toque de amor,
O umedecer dos dedos, as vertigens noturnas, um clarão de luna, um espasmo entre as pernas,
A loucura senta-se e na varanda desenha a lua, a cegueira fecha as janelas,
É hora da cama, o perfume das magnólias brancas, o amor se ajeita entre as três,
Cada uma ao seu se jeito se dá, a primavera desmaia, faz sol sem ser dia,
E o amor costura a loucura com fios de seda e penetra com centelhas de uma luz desconhecida, bem fundos nos olhos da cegueira,
A moça apaixonada fechou bem os olhos para saber amar com os sentidos, enlouqueceu o que tinha de são e se perdeu mil vezes antes que a loucura ensinasse a cegueira a por a linha na agulha




Charles Burck