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sexta-feira, 21 de julho de 2017

Pássaro preto posou em silêncio sobre o poste
O féretro passou
O melro tinha medo da morte,
Foi na maré vazante que a menina sangrou
As folhas caídas das uvas tintas, luou
A vulva inchada, os mamilos intumescidos
Onde as rosas floresciam perfurando o sutiã
O melro olhou para o outro, cada um bebendo de um cálice,
Dois melros de asas abertas, desejando roubar a virgindade,
Levar para a floresta a calcinha da menina, fazê-la mulher,
Se vida tivesse, o rapaz que morreu,
Eles iriam ensiná-lo ao prazer
Um bico no bico
Mas na falta do sexo, comeram-lhe os olhos


Charles Burck 
O acervo de memórias que percorre em cada átrio lombar, rabiscam os lírios na intenção de desvendar a si mesmo, o perfume que exala,
A longa distância a caminhar, a chegar onde os astros nos esperam
Às vezes aceno a esse caos que me toma, as estradas que eu vejo não se desenham ao longo,
Recuso-me a fazer retornos, os cenários mudam, mas não a dimensão do que sinto,
As margens são casas estranhas, os meus passos não reconhecem esse chão,
Os meus olhos hesitam,
Sou alheio à corrente
Quantas vezes me assomam a certeza que a nada pertenço, que não sou desse mundo


Charles Burck


Os copos de bebermos, as manchas dos dedos, as digitais em conversas subtraídas,
As recusas, os ditos que não,
Há dias em que nada acontece,
As chaves que não cabem em fechaduras trocadas,
Mas as manchas de batons nos copos tem gosto de cerveja chocada
Então, os pedidos de subtrair amigos à vida, sentem
Mas recuso-me a partir assim,
Há coisas melhor a acontecer,
Mas há noite que não acontece nada,
Contingenciadas tristezas a subtrair coisas boas,
Os copos cheios e os vazios do nada alastrados,
É demasiado tarde para agora, tudo subtraído,

Quando os corações não se falam, até os copos se calam



Charles Burck 
Se eu soubesse contar história diria que o tempo trouxe as marés passadas,
Ao teu lado e ao meu, quando pensávamos que morreríamos de amor  abandonado
O abandono se fez verso ao avesso na areia que deitamos,
Para nos ensinar que nada se perde no tempo,
Somos nós que nos adiantamos ao que fomos além,
A casa ainda está lá, certamente desbotada de tantos ventos, lembranças e maresias,
Eu, nas ranhuras das tintas velhas, dada à minha insistência as paredes respondiam quando eu dizia que morreríamos de amor abandonado,
Deixa de enganos e dramas, olha o mar como brilha
Eu ao teu lado e tu ao lado meu, um logo após o outro, de saudades e melancolias, que nunca foram nossas
A poucas distâncias de dias corríamos pelas areias macias a perseguirmos um a boca do outro
Mas se eu soubesse contar histórias diria:
Que quem passou por aqui agora, sente, o festejar do sol a abrir-se ao céu,
E rimos continuamente quando subimos ao passadiço de madeira
De amor abandonado vivemos sempre, juntinhos
E vislumbramos a imagem do mar na certeza do imenso horizonte
E do que nunca acertamos, que morreríamos de amor abandonado


Charles Burck





Despes-te, então namorada, as bocas coladas, numa benesse súbita,
Nessa travessia que chamamos de nós, os dias são inseguros e a amar uma forma de poemar no tempo
É assim te contemplo por todas as noites que te quero, que se aninhas na nossa mútua forma de nos entendermos
Quando os meus dedos pelejam em te dar o melhor, nas palavras suadas nas palmas das mãos,
Ao que sustentam os arrepios, cada vez mais perto de afogar-se nos abismos do desejo,
E ainda assim te verso, às alta horas, mansas, calmas onde os acordes estão na pele,
Quando me perdes cansada que os meus dedos finalmente a esqueçam,
Mas os meus beijos passeiam em tuas costas, e já entregues a novas vertigens,
Seguimos a nos conhecermos
Na ânsia do respirar, na crédula esperança de assim nos bastarmos.
Vestes-te então, assim que despertam as manhãs,
O tecido a cobrir-te os pelos, as pele arredia de não despertar,
Os olhos ainda dormentes e voz rouca das noites gemidas, dos apelos,
Vestes-se ainda assim onde se deitam as miragens de nós dois,
Os adeuses se negam aos amantes
Como se fossemos dois seres que não querem deixar o amor partir

Charles Burck



O café sem açúcar
Os dedos frios,
Será que a minha miragem passou por aqui?
Encolhida em inverno de tardes mansas molhadas em orvalhos
A chuva desfaz os contornos que eu não descobri com o tempo
Impressos numa simples folha de papel de seda,
Uma linha reta como o rastro de um barco desenhando horizonte,
E tu me perguntaste se imaginava a casa vazia,
A pergunta largada sorrateiramente serpenteando
De onde estou agora avisto o escassear da verdade
O que era sagrado vertendo à deriva dos ventos,
O horizonte mudou de lugar e a vida se escondeu do poeta,
A métrica escrita em uma tabuleta na porta vendo
O chão é mais duro agora, os olhos do mar parecem que leem mais profundo em mim,
A breve viagem a curta distância do rosto, não é a solidão que nos mata
Mas a impossibilidade de arguirmos a vida
De seguirmos encontrando uma moldura certa que se encaixe numa história torta


Charles Burck 
Escrever não é só da mente, do intelecto
É tanto dos sentidos, do corpo e da alma,
O sabor da boca, o aguçado do tato, o apalpar da palavra
O olhar mais profundo ou mais longo, o que se adianta ao tempo
Ao horizonte, ao que nem mesmo sabemos
O desencravar das densidades no que se diz,
Arrancar dos labirintos de nós as emoções,
Assim ir vivendo e morrendo enquanto se escreve


Charles Burck